segunda-feira, 27 de outubro de 2025
sábado, 16 de agosto de 2025
Planícies de Inundação e a Alma Americana
Há um lugar na Califórnia onde os rios tentam lembrar aos homens que tudo flui. É o Vale do Sacramento, onde a Floodplain Forward Coalition trabalha para reconectar o que a pressa separou: águas e margens, peixes e pássaros, ciência e sobrevivência. Ali, a geografia não é apenas paisagem — é memória, é resistência, é promessa.
Enquanto isso, em outro canto da mesma nação, um homem nega tudo. Nega o clima, nega a ciência, nega a história. Ele ocupa o cargo mais alto, mas parece viver num porão ideológico, onde a luz não entra e o eco é a única companhia. Donald Trump, presidente de um país que já cantou o Blues, que já vagou pelas estradas com Kerouac, que já gritou contra a guerra com Dylan. O mesmo país que produziu a contracultura agora se vê refém de uma figura que é, paradoxalmente, produto dela.
É a singularidade americana: terra de planícies férteis e desertos morais. De coalizões ecológicas e muros simbólicos. De vozes que cantam a dor e outras que berram a negação.
E nós, observadores desse teatro geossistêmico, tentamos costurar sentido. Porque a geografia não é neutra. Ela é palco e personagem. Ela é onde a cultura se inscreve, onde a política se desenha, onde a identidade se revela.
No fim, talvez o Blues tenha razão: é preciso cantar a dor para não afundar nela. É preciso lembrar que até o rio, quando respeitado, sabe voltar ao leito. E que a planície, mesmo inundada, guarda em si a semente da regeneração.
https://www.linkedin.com/pulse/cheia-e-o-pr-luciano-f-d-s-paula-irlhf
quinta-feira, 14 de agosto de 2025
Macunaímas Digitais
Toda vez que Aderbal publica um texto pedindo o fim da polarização política, o Brasil parece se dividir ainda mais. Seu apelo é simples: “Amo meu país, independente de quem esteja na presidência.” Mas essa simplicidade é justamente o que escapa à maioria. O que ele propõe — amar o Brasil acima das disputas — soa quase utópico num país onde o debate virou duelo, e o argumento virou arma.
A imagem que ele constrói é a de um Brasil sequestrado por dois polos que se odeiam mais do que amam a própria terra. E nesse campo minado, qualquer tentativa de neutralidade é vista como traição. Aderbal não está pedindo indiferença, mas lucidez. E isso, por aqui, é artigo de luxo.
Foi nesse cenário que entrei, não para debater, mas para fugir. Disse que evito esse tipo de conversa para preservar minha saúde mental. Mas não resisti à tentação de lançar uma chave de leitura: o Macunaíma que habita o inconsciente coletivo brasileiro. O herói sem caráter, esperto, ambíguo, que ri da própria tragédia e transforma tudo em jeitinho.
Essa polarização burra — como a chamei — não é só política. É sintoma de uma construção social frágil, onde o debate público nunca se firmou como espaço de escuta, mas como palco de vaidades. Está tudo lá, descrito por Machado de Assis com sua ironia cirúrgica, e por Roberto Schwarz com sua crítica à ideologia fora do lugar.
O Brasil é potência, sim. Mas é também atraso. É genialidade e disfuncionalidade convivendo na mesma esquina. E talvez seja por isso que, mesmo quando tentamos fugir do debate, acabamos contribuindo para ele — com literatura, com dor, com esperança.
Porque no fundo, como diria o próprio Macunaíma: “Ai, que preguiça.” Mas seguimos.
#machadodeassis #macunaima #robertoschwarz #aderbalnogueira
sábado, 19 de julho de 2025
O Brasil que ainda não despertou – Entre o #GPS, o satélite e o dever da esperança!
É uma cena corriqueira, mas perturbadora: alguém se indigna nas redes sociais com o fato de o Brasil não ter um sistema próprio de GPS. Foi o que fez @Larissa Rohde em uma publicação no Facebook: “Absurdo que o Brasil não tenha um sistema de GPS próprio.” No calor da indignação, uma resposta se destacou: “O Ciro trata disso há 30 anos.”
Não era apenas um comentário. Era uma denúncia histórica. Uma lembrança de que há três décadas, Ciro Gomes vem alertando sobre temas como soberania tecnológica, independência geopolítica e o papel estratégico da ciência nacional.
Ciro e o Brasil que poderia ter sido
Em debates públicos, entrevistas e no livro Projeto Nacional – O Dever da Esperança, Ciro não economiza: “Ciência e tecnologia é hoje o outro nome de independência.” O GPS próprio se insere nesse sonho de um Brasil que investe em sua infraestrutura espacial, que se recusa a depender das réguas dos EUA ou da benevolência da Rússia. Ele propõe, inclusive, destinar 3% do PIB à ciência e tecnologia, com atenção especial às áreas de defesa, saúde, agricultura e engenharia espacial.
Essa proposta não nasce do improviso. Ela está alinhada à defesa que Ciro faz de órgãos como INPE, Butantan e Fiocruz como pilares de um desenvolvimento autônomo. É dentro dessa lógica que se compreende a urgência de um sistema nacional de posicionamento global: não apenas por segurança, mas como um símbolo de soberania.
Ciro também já mencionou essa pauta em entrevistas ao Canal Livre, nas sabatinas da Folha de S.Paulo, nos debates presidenciais e nas lives com economistas como Nelson Marconi. Em todos, o tom é o mesmo: o Brasil precisa reaprender a fazer o que já fez — aviões como o Super Tucano, jipes como o Troller, veículos blindados como o Osório. Precisamos abandonar o complexo de vira-lata tecnológico.
Vozes da frustração: o Brasil como continente adormecido
O leitor @Geossistemas — o próprio autor desta crônica — tocou num ponto visceral. Disse: “O Brasil não é a Polônia ou a Eslováquia; o Brasil é um continente. Já construiu a Embraer, já perfurou poços no mar, já construiu o Osório, o Super Tucano e o Troller.”
Esse desabafo carrega verdade e raiva. E ela é legítima. O Brasil já provou, em diversos momentos da história, que é capaz de se reinventar. Mas hoje, segundo Geossistemas, está prisioneiro de duas figuras menores, “decrépitas”, enquanto o país precisa reorganizar sua economia e trilhar novas “rotas da seda” com parceiros como China e Rússia — leia-se: Ásia.
E mais: ele cobra diretamente o presidente Lula — que pare de falar de jabuticaba e vá trabalhar. Ou que entregue o cargo a Geraldo Alckmin, se for incapaz de dar conta. Cobra também o STF, para que não deixe Bolsonaro impune. Para Geossistemas, não há tempo a perder: “Esse país não pode ficar à mercê de duas figuras menores.”
Entre o satélite e o dever da esperança
A frase sobre o GPS não é só técnica — é política, é emocional. O Brasil não precisa de mais diagnósticos; precisa de ação. Já temos a inteligência, os engenheiros, os institutos. Nos falta vontade política, coordenação e coragem.
A crônica de hoje é uma convocação. Que não falte voz, nem memória. Que não falte Ciro, nem Geossistemas. Que não falte a capacidade de sonhar com um país que projeta seus próprios satélites e trilha suas próprias órbitas.
quarta-feira, 16 de julho de 2025
O peso do olhar que falta
Hoje fui lembrado de uma das cenas mais emblemáticas do cinema: o momento em que o rei Leônidas, no filme Trezentos, está prestes a tomar uma atitude radical — e antes de fazê-lo, olha para sua esposa. Ela, em silêncio, chancela com um leve gesto de cabeça. É o bastante. Ele age.
Aquilo ficou na minha cabeça por dias.
Naquela cena, o que se vê não é uma relação de submissão ou hierarquia. É cumplicidade. Leônidas não pede permissão — ele busca respaldo. E o que ele encontra ali é exatamente o que todo guerreiro precisa antes da batalha: um olhar que diga “estou contigo”.
Volto ao presente. Recentemente, enfrentei uma situação frustrante no meu trabalho. Fui ao campo para executar um serviço, como sempre faço com responsabilidade. Mas o terreno estava completamente intransitável. O cliente, além de não ter cumprido o combinado, ainda exigia que eu voltasse para tentar novamente, sem ter sequer me pago.
Recusei. Tracei um limite. Não por orgulho, mas por respeito — a mim mesmo, ao meu tempo, ao meu ofício. Esperava que, ao chegar em casa, encontraria um gesto de compreensão, talvez um “você fez certo”. Mas recebi julgamento. Críticas. A sensação era de estar sendo desqualificado justo por quem deveria me fortalecer.
É nessas horas que a gente sente o peso do olhar que falta.
Ninguém carrega o mundo sozinho. Não é fraqueza desejar apoio — é humano. Nossos desafios diários exigem mais do que força técnica: exigem sustentação emocional. E quando essa sustentação falha, é como se a base tremesse por dentro, mesmo quando a fachada continua firme.
Não escrevo isso em busca de aplausos ou pena. Escrevo porque sei que muitos se sentem assim. Homens, mulheres, trabalhadores de todas as áreas: cansados de dar o melhor de si lá fora e voltar para um lar onde suas batalhas são minimizadas.
Que possamos refletir sobre isso. Que, mais do que apontar o dedo, sejamos capazes de oferecer o gesto de apoio. Às vezes, tudo que o outro precisa é daquele leve aceno de cabeça que diz: eu te vejo, eu te reconheço, eu estou contigo.
sexta-feira, 11 de julho de 2025
Lula, a História e a Soberania Nacional: O Brasil Não Começa em 1970
Por Luciano FDS Paula
Em recente entrevista ao Jornal Nacional, o presidente Lula afirmou que o Brasil mantém "há 200 anos boas relações com os Estados Unidos" e que "a diplomacia brasileira não tem contencioso com ninguém no mundo". A frase, aparentemente inofensiva, revela muito mais do que um gesto diplomático: expõe uma perigosa despolitização da memória histórica e um desprezo estratégico pelas estruturas reais do mundo contemporâneo.
Será que Lula leu a Carta-Testamento de Getúlio Vargas? Será que ele desconhece que João Goulart foi derrubado com apoio direto da CIA e da Casa Branca? Terá ele esquecido que, em 2013, a presidente Dilma Rousseff teve suas comunicações e o gabinete presidencial espionados pela NSA?
O mito das “boas relações”
A história das relações Brasil-EUA não é marcada por cooperação incondicional, mas por intervenções, imposições e vigilância constante dos interesses norte-americanos sobre nossas decisões internas. A chamada “aliança” sempre foi assimétrica: o Brasil entrega matérias-primas, abre mercados, privatiza o que tem e, em troca, recebe promessas, pressão e monitoramento.
Ao ignorar esse passado — e mais do que isso, ao romantizá-lo —, o presidente reforça uma visão ingênua ou cúmplice da posição subalterna que ainda ocupamos na ordem internacional.
A transição tutelada e o engessamento da democracia
A democracia brasileira não foi conquistada com ruptura e empoderamento popular, mas concedida sob controle das elites e supervisão geopolítica de Washington. A “transição lenta, gradual e segura” iniciada nos anos 1980 garantiu que os pilares do autoritarismo continuassem vivos:
-
Nenhum militar julgado;
-
Nenhuma reparação estrutural;
-
Nenhuma refundação republicana.
O resultado? Uma democracia amarrada, tímida e pouco cidadã, que alterna presidentes sem alterar os fundamentos do poder econômico e geopolítico que regem o país.
O Brasil não começa com Lula
Lula não é o ponto de partida da história brasileira. Ao contrário do que seu discurso muitas vezes sugere, há um Brasil profundo que o precede, feito de luta popular, resistências, ideias, revoltas e projetos de nação que foram soterrados pelas elites e apagados das escolas. Ignorar essa trajetória é enfraquecer a formação crítica do povo brasileiro.
Quando Lula diz que o Brasil não tem contencioso com ninguém, ele não apenas nega os conflitos de interesse econômico, geopolítico e industrial que nos envolvem, mas também desarma o povo frente às disputas reais que estruturam o planeta.
Soberania se constrói com povo crítico e Estado forte
Hoje, o Brasil encontra-se militarmente vulnerável, tecnologicamente dependente, industrialmente estagnado e geopoliticamente periférico. Nossas Forças Armadas estão sucateadas, sem peças nem combustível, presas a uma doutrina obsoleta e incapazes de exercer um papel estratégico na defesa do território nacional.
Falar de soberania, portanto, exige mais do que discursos bonitos: exige memória histórica, política industrial robusta, revalorização das forças nacionais e educação política do povo.
Conclusão
Lula poderia — e deveria — usar seu capital político e histórico para reacender no povo brasileiro a chama da soberania, da crítica e da autonomia. Mas ao invés disso, opta por um discurso diplomático despolitizante, que nos afasta da realidade do mundo e nos aproxima do conformismo.
É hora de lembrar: o Brasil não começa com Lula. E não sobreviverá como nação soberana se continuar se esquecendo de si mesmo.
segunda-feira, 9 de junho de 2025
Fotografia que eterniza momentos: Félix Arnaudin e os pastores das Landes
No tempo em que a terra era vasta e os caminhos incertos, havia um homem que caminhava entre os ventos, com olhos que viam além do presente. Félix Arnaudin não era apenas um viajante, mas um guardião da memória.
Nas planícies desoladas, pastores erguiam-se sobre altas estacas de madeira, como sentinelas de um reino que estava desaparecendo. Eles não caminhavam pelas estradas dos homens, mas pelos caminhos da criação, elevados acima da lama e da incerteza. Suas vestes eram simples, suas vidas solitárias, mas sua missão era grande: guiar os rebanhos, proteger o que lhes foi confiado.
Assim como um pastor conhece cada uma de suas ovelhas, Félix conhecia cada rosto, cada canção e cada sombra que pairava sobre sua terra. Ele não apenas viu o que estava desaparecendo—ele sentiu. E, como um escriba dos tempos antigos, gravou em prata e luz aquilo que o mundo já começava a esquecer.
Mas veio o progresso, e os caminhos foram pavimentados. Os pântanos secaram, e os pastores desceram de suas alturas. O que antes era necessário tornou-se relíquia. O que antes era vida tornou-se lenda. Muitos seguiram em frente, sem olhar para trás. Mas Félix permaneceu, como um profeta anunciando que não se deve esquecer os dias antigos.
Suas imagens tornaram-se testemunho, e através delas, os pastores das Landes nunca desapareceram completamente. Como um bom pastor que nunca abandona seu rebanho, Félix manteve viva uma história que poderia ter sido apagada. Assim, através da sua obra, os ecos da Gasconha ainda ressoam—altos, firmes e silenciosos, como sentinelas de um passado que ainda tem algo a dizer.





Mas essa frase não chegou até mim por acaso. Ela é parte de uma hashtag#caminhada que começou lá atrás, nos corredores do Bloco G da Universidade Estadual do Ceará, onde a Geografia me apresentou ao hashtag#Belchior. E Belchior, com sua voz de resistência e inquietação, me apresentou à literatura — hashtag#EdgarAllanPoe, hashtag#Drummond, e tantos outros que habitam o mesmo universo lírico e crítico. Mas foi também Belchior quem me apresentou ao Bob Dylan.
A primeira música que ouvi foi hashtag#LikeaRollingStone. Na época, achei que ele falava das pedras que rolam e não criam musgo. Hoje, entendo que essa imagem é só a superfície. A música fala de queda, de liberdade, de perder tudo e continuar. É sobre não ter mais nada a esconder. É sobre caminhar.
E foi isso que eu fiz. Desde aquele dia, venho seguindo esse caminho — consumindo a poesia dylanesca, aprendendo a escutar o mundo com outros ouvidos. Porque Dylan não é só para ouvir. É para ruminar, para ler nas entrelinhas, para sentir o tempo que passa entre os versos. E Belchior sabia disso. Ele me deu o hashtag#mapa. Dylan me deu a estrada. O caminhar por este caminho.
Essa caminhada se entrelaça com tudo: com a escalada da violência urbana que assola o Ceará, com a violência financeira que humilha milhões de brasileiros, com a inquietação diante da militarização da nossa vizinhança. Mas também se entrelaça com a hashtag#esperança — de que a arte, a escuta e a palavra ainda são formas de resistência.
Hoje, olho para trás e vejo que a Geografia não me ensinou apenas sobre hashtag#espaço. Ela me ensinou sobre escuta. Sobre hashtag#territórioafetivo. Sobre como a cultura pode ser um mapa para entender o mundo.
E sigo caminhando.