quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O Homem do Icaraí



Existe uma mesa na casa do sítio da minha família, em Icaraí de Amontada, que talvez tenha participado mais da minha formação do que eu pudesse imaginar.

Quando criança, eu não compreendia exatamente o que acontecia ao redor dela.

Nas férias, sentava ali.

Naquela mesma mesa, meu avô, José Gonçalves de Sousa — o Zé Açu — recebia moradores de Icaraí, pescadores, agricultores, amigos, autoridades e políticos.

Algumas dessas pessoas ocupavam posições importantes na política de Itapipoca e do Ceará.

Meu avô havia sido eleito vereador de Itapipoca em 1972, representando Icaraí, quando a comunidade ainda pertencia territorialmente àquele município.

Eu só não sabia, naquela época, que estava sentado no meio de uma experiência concreta de política, território e poder.

Eu estava apenas sentado à mesa do meu avô.

Há histórias que pertencem a uma família.

E há histórias que, com o passar do tempo, deixam de pertencer somente à família e passam a fazer parte da memória de um lugar.

Meu avô, José Gonçalves de Sousa, o Zé Açu, foi um desses homens.



Nasceu em 13 de julho de 1937 e viveu uma parte fundamental de sua trajetória em Icaraí de Amontada, quando aquela pequena comunidade de pescadores e agricultores ainda pertencia ao município de Itapipoca.

Foi vereador de Itapipoca, representando Icaraí. Chegou a integrar a Mesa Diretora da Câmara como primeiro secretário. Exerceu também a função de delegado local, numa época em que essas funções eram profundamente vinculadas às relações políticas e comunitárias.

Mas nenhum desses cargos explica sozinho quem ele foi.

Porque, na memória das pessoas, meu avô era mais do que um vereador ou um delegado

Era uma referência.

As autoridades que chegavam àquela pequena vila passavam pela sua casa. Há ainda histórias que estou tentando transformar em documentos. Entre elas, a memória familiar de que Virgílio Távora, em suas andanças pelo Ceará, teria passado por Icaraí e almoçado na casa do meu avô.

O mesmo espaço era frequentado por figuras da política de Itapipoca e do Ceará, como Antônio Danúsio Barroso, Gerardo Barroso, José Agenor Henrique, José Abílio Bruno, Antenor Romero e Vicente Antenor Ferreira Gomes Filho, além de outras lideranças que faziam parte daquela rede de relações políticas e pessoais.

E o pescador mais humilde, quando precisava resolver alguma questão — política, administrativa, social — também procurava por ele.

Ele era, de certa maneira, um diplomata local.

Um homem que fazia a mediação entre mundos diferentes.

E talvez seja justamente aí que esteja o seu maior legado.

Meu avô fazia política em um tempo em que, pelo menos para aqueles homens que marcaram minha infância, política significava serviço.

Não havia redes sociais.

Não havia marketing político.

Não havia estruturas sofisticadas de comunicação.

Havia palavra, reputação, presença e compromisso.

E havia uma coisa que ele repetia quando uma conversa começava a ficar complicada:

“Tá com conversa beeeesta, sujeito!”

Eu cresci ouvindo isso.

Anos depois, já na universidade, encontrei nos debates acadêmicos mais sofisticados conceitos que, de algum modo, me faziam lembrar daquela frase.

A capacidade de identificar o que é essencial.

De cortar a retórica.

De voltar ao problema concreto.

Talvez eu tenha aprendido Geografia antes mesmo de saber o que era Geografia.

Aprendi olhando para aquele território.

Para as pessoas.

Para as relações.

Para os conflitos.

Para a política.

Para a maneira como uma pequena comunidade se organizava.

Hoje, duas décadas depois de sua morte, aconteceu algo que me emociona profundamente.

A Câmara Municipal de Amontada aprovou a denominação do Centro de Artesanato de Icaraí de Amontada com o nome de José Gonçalves de Sousa — Zé Açu.

E isso significa muito mais do que colocar um nome em uma placa.

Significa permitir que uma nova geração pergunte:

“Quem foi Zé Açu?”

E alguém poderá responder.

Contar que ele foi vereador.

Contar que foi delegado.

Contar que serviu à comunidade.

Contar das pessoas que procuravam sua casa.

Contar das histórias.

Contar de Dona Nídia, minha avó, que também serviu à comunidade como auxiliar de enfermagem, cuidando de gente quando os recursos eram poucos e as distâncias eram grandes.

Contar que aquele homem existiu.

Que aquela mulher existiu.

E que eles ajudaram a construir a história de Icaraí.

Talvez seja esse o sentido mais bonito de um topônimo.

Um nome escrito em uma placa transforma um espaço em lugar de memória.

E, no meu caso, existe ainda uma dimensão pessoal impossível de ignorar.

Quando volto a Icaraí e digo quem sou, muitas vezes ainda escuto:

“Você é neto do Zé Açu?”

E depois vem quase sempre a mesma frase:

“Seu avô foi um grande homem.”

É difícil explicar o que isso significa para um neto.

Meu avô morreu jovem, em 6 de novembro de 2005.

Mas descobri que alguns homens continuam vivos de outra maneira.

Vivem nas histórias que as pessoas contam.

Nas lembranças.

Nas casas.

Nos lugares.

Nas famílias.

E, agora, em uma placa pública no coração de Icaraí de Amontada.

Tenho orgulho desse legado.

E uma enorme responsabilidade diante dele.

Porque herança não é somente aquilo que recebemos.

Herança é aquilo que decidimos carregar adiante.

Hoje, Icaraí passa a contar oficialmente a história de José Gonçalves de Sousa, o Zé Açu.

O homem do Icaraí.

Alguns homens deixam propriedades.
Outros deixam nomes.
Os maiores deixam referências.

Entre uma geração e outra, mudou a escala, mudou a profissão e mudou o mundo. Mas permaneceu a disposição de ocupar espaços públicos para representar pessoas, territórios e interesses coletivos. 


Desde criança eu tenho uma ligação muito forte com a política, com o debate público, com o Estado e com as questões que dizem respeito à vida coletiva.

Estudei Geografia.

Passei a trabalhar com território, planejamento, geoprocessamento e políticas públicas.

Atuei profissionalmente junto ao poder público.

Fui presidente da Associação dos Profissionais de Geografia do Ceará e, nessa condição, tive a oportunidade de ocupar tribunas em Fortaleza e em várias outras cidades pelo país afora, falando em nome dos geógrafos do Ceará.

Durante muito tempo pensei que esse caminho tivesse sido simplesmente uma escolha minha.

Hoje estou começando a compreender que talvez exista uma história anterior.

Quando criança, nas férias em Icaraí, eu sentava em cima da mesa do meu avô.

Essa mesa ainda existe.

Está no nosso sítio.

E naquela mesa almoçaram deputados, prefeitos, candidatos, lideranças políticas e moradores da comunidade.

Eu era criança.

Não compreendia o que estava acontecendo.

Não sabia que aquelas conversas eram política.

Mas eu estava ali.

Observando.

Talvez algumas das coisas que mais nos formam aconteçam justamente antes de termos consciência de que estamos sendo formados.

Meu avô fazia política olhando para as pessoas.

Eu aprendi, pela Geografia, a olhar para os territórios.

Talvez sejam linguagens diferentes para uma mesma pergunta:

como uma comunidade organiza a sua vida coletiva?



 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

 Tempo, Tempo, Tempo; O Homem que se deixou devorar pelo Tempo

Um homem sábio do nosso tempo disse certa vez que o "nosso único dever real é lutar ferozmente para introduzir, no tempo de cada dia, o máximo de eternidade". Quando olhamos para as estradas da Galileia e o caminhar pelo vale da sombra da morte, percebemos que foi exatamente isso que Cristo fez: caminhou no tempo dos homens, mas plantando as sementes do Reino de Deus a cada amanhecer, mesmo quando a luz tardava a chegar naquele lugar.
Mas o oposto também acontece. Há aqueles que, tomados pelo medo, deixam de viver o hoje porque acreditam que o tempo já os venceu.
Imagine um homem que, ainda na força dos seus dias, olhou para o horizonte e decretou: "Quem fez, fez; quem não fez, não faz mais". Vinte anos se passaram desde aquela frase, e aquele homem continua parado no mesmo lugar, trancado na fortaleza do seu próprio temor. O medo do fim o paralisou de tal forma que ele se recusa até mesmo a cuidar do próprio corpo, deixando que seus dentes caiam sem conserto, como se dissesse: "Para que cuidar do que o tempo vai levar?".
Esse homem transformou a sua própria vida em um leito de paralítico. Ele não está morto, mas já aceitou ser devorado por Chronos, o tempo linear que consome os dias e rouba a esperança. Ele sentou-se à beira do caminho e abriu a boca para esperar a morte chegar.
Olhando para essa cena, o coração de quem ama se enche de uma profunda tristeza e de um peso insuportável. Sentimo-nos impotentes. Queremos ser o salvador daquele homem, queremos forçá-lo a levantar, mas logo percebemos a verdade mais dolorosa de todas: nós não somos o Cristo eterno. Não temos o poder de dar pernas a quem escolheu continuar deitado. O livre-arbítrio é o solo sagrado onde nem mesmo o céu pisa à força. Jesus sempre perguntava: "Queres ser curado?", porque a cura exige o desejo de viver.
O que o mestre nos ensina, então, quando nos deparamos com os leitos daqueles que amamos e não podemos curar?
Ele nos lembra daquele paralítico a quem Ele estendeu a mão. Jesus não o levou consigo no barco para viver nas nuvens; Ele deu uma ordem clara: "Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa".
Tomar o leito significa que aquilo que antes te paralisava e te dominava pelo medo, agora deve ser carregado por você como prova de vitória. E ir para casa significa que a eternidade não se vive na fuga da realidade, mas na transformação do nosso dia a dia, por mais difícil e cinzenta que seja a nossa rotina.
Se você ama alguém que escolheu se entregar ao medo do tempo, não tente carregar o leito por ele. Entregue esse fardo nos ombros de Quem realmente pode carregar a humanidade. A sua missão, como um "pequeno Cristo" na Terra, não é salvar quem quer se perder, mas garantir que o medo do outro não paralise a sua própria caminhada.
Cuide do seu corpo, limpe a sua casa, cure a sua mente e lute ferozmente hoje. Enquanto houver fôlego, o Reino de Deus estará à mão. Não permita que o tempo devore os seus dias; faça de cada segundo um pedaço de eternidade. Quem tiver discernimento para discernir, que discirna.

Luciano FDS Paula,
Fortaleza, agosto de 2026.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Entre #Dylan, Belchior e os corredores da #UECE: uma #geografia da escuta


“Flashing for the warriors whose strength is not to fight” — essa frase me atravessou como um raio. Encontrei ela nos comentários de um vídeo do Bob Dylan, e desde então, nunca mais saiu de mim. É uma homenagem aos que hashtagresistem sem armas, aos que lutam com princípios, aos que fazem da palavra sua trincheira.

Mas essa frase não chegou até mim por acaso. Ela é parte de uma hashtagcaminhada que começou lá atrás, nos corredores do Bloco G da Universidade Estadual do Ceará, onde a Geografia me apresentou ao hashtagBelchior. E Belchior, com sua voz de resistência e inquietação, me apresentou à literatura — hashtagEdgarAllanPoe, hashtagDrummond, e tantos outros que habitam o mesmo universo lírico e crítico. Mas foi também Belchior quem me apresentou ao Bob Dylan.

A primeira música que ouvi foi hashtagLikeaRollingStone. Na época, achei que ele falava das pedras que rolam e não criam musgo. Hoje, entendo que essa imagem é só a superfície. A música fala de queda, de liberdade, de perder tudo e continuar. É sobre não ter mais nada a esconder. É sobre caminhar.
E foi isso que eu fiz. Desde aquele dia, venho seguindo esse caminho — consumindo a poesia dylanesca, aprendendo a escutar o mundo com outros ouvidos. Porque Dylan não é só para ouvir. É para ruminar, para ler nas entrelinhas, para sentir o tempo que passa entre os versos. E Belchior sabia disso. Ele me deu o hashtagmapa. Dylan me deu a estrada. O caminhar por este caminho.

Essa caminhada se entrelaça com tudo: com a escalada da violência urbana que assola o Ceará, com a violência financeira que humilha milhões de brasileiros, com a inquietação diante da militarização da nossa vizinhança. Mas também se entrelaça com a hashtagesperança — de que a arte, a escuta e a palavra ainda são formas de resistência.

Hoje, olho para trás e vejo que a Geografia não me ensinou apenas sobre hashtagespaço. Ela me ensinou sobre escuta. Sobre hashtagterritórioafetivo. Sobre como a cultura pode ser um mapa para entender o mundo.
E sigo caminhando.

sábado, 16 de agosto de 2025

Planícies de Inundação e a Alma Americana


Há um lugar na Califórnia onde os rios tentam lembrar aos homens que tudo flui. É o Vale do Sacramento, onde a Floodplain Forward Coalition trabalha para reconectar o que a pressa separou: águas e margens, peixes e pássaros, ciência e sobrevivência. Ali, a geografia não é apenas paisagem — é memória, é resistência, é promessa.

Enquanto isso, em outro canto da mesma nação, um homem nega tudo. Nega o clima, nega a ciência, nega a história. Ele ocupa o cargo mais alto, mas parece viver num porão ideológico, onde a luz não entra e o eco é a única companhia. Donald Trump, presidente de um país que já cantou o Blues, que já vagou pelas estradas com Kerouac, que já gritou contra a guerra com Dylan. O mesmo país que produziu a contracultura agora se vê refém de uma figura que é, paradoxalmente, produto dela.

É a singularidade americana: terra de planícies férteis e desertos morais. De coalizões ecológicas e muros simbólicos. De vozes que cantam a dor e outras que berram a negação.


A planície de inundação é metáfora perfeita. Quando o rio transborda, ele não destrói — ele fertiliza. Mas para isso, é preciso espaço, é preciso escuta. A coalizão entende isso. Trump, não. Ele é a cheia que não quer recuar, que quer ocupar tudo, endurecer o solo, impedir o fluxo.

E nós, observadores desse teatro geossistêmico, tentamos costurar sentido. Porque a geografia não é neutra. Ela é palco e personagem. Ela é onde a cultura se inscreve, onde a política se desenha, onde a identidade se revela.

No fim, talvez o Blues tenha razão: é preciso cantar a dor para não afundar nela. É preciso lembrar que até o rio, quando respeitado, sabe voltar ao leito. E que a planície, mesmo inundada, guarda em si a semente da regeneração.

https://www.linkedin.com/pulse/cheia-e-o-pr-luciano-f-d-s-paula-irlhf



quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Macunaímas Digitais





Toda vez que Aderbal publica um texto pedindo o fim da polarização política, o Brasil parece se dividir ainda mais. Seu apelo é simples: “Amo meu país, independente de quem esteja na presidência.” Mas essa simplicidade é justamente o que escapa à maioria. O que ele propõe — amar o Brasil acima das disputas — soa quase utópico num país onde o debate virou duelo, e o argumento virou arma.

A imagem que ele constrói é a de um Brasil sequestrado por dois polos que se odeiam mais do que amam a própria terra. E nesse campo minado, qualquer tentativa de neutralidade é vista como traição. Aderbal não está pedindo indiferença, mas lucidez. E isso, por aqui, é artigo de luxo.

Foi nesse cenário que entrei, não para debater, mas para fugir. Disse que evito esse tipo de conversa para preservar minha saúde mental. Mas não resisti à tentação de lançar uma chave de leitura: o Macunaíma que habita o inconsciente coletivo brasileiro. O herói sem caráter, esperto, ambíguo, que ri da própria tragédia e transforma tudo em jeitinho.

Essa polarização burra — como a chamei — não é só política. É sintoma de uma construção social frágil, onde o debate público nunca se firmou como espaço de escuta, mas como palco de vaidades. Está tudo lá, descrito por Machado de Assis com sua ironia cirúrgica, e por Roberto Schwarz com sua crítica à ideologia fora do lugar.

O Brasil é potência, sim. Mas é também atraso. É genialidade e disfuncionalidade convivendo na mesma esquina. E talvez seja por isso que, mesmo quando tentamos fugir do debate, acabamos contribuindo para ele — com literatura, com dor, com esperança.

Porque no fundo, como diria o próprio Macunaíma: “Ai, que preguiça.” Mas seguimos.


#machadodeassis #macunaima #robertoschwarz #aderbalnogueira



sábado, 19 de julho de 2025

O Brasil que ainda não despertou – Entre o #GPS, o satélite e o dever da esperança!

 


É uma cena corriqueira, mas perturbadora: alguém se indigna nas redes sociais com o fato de o Brasil não ter um sistema próprio de GPS. Foi o que fez @Larissa Rohde em uma publicação no Facebook: “Absurdo que o Brasil não tenha um sistema de GPS próprio.” No calor da indignação, uma resposta se destacou: “O Ciro trata disso há 30 anos.”

Não era apenas um comentário. Era uma denúncia histórica. Uma lembrança de que há três décadas, Ciro Gomes vem alertando sobre temas como soberania tecnológica, independência geopolítica e o papel estratégico da ciência nacional.

 Ciro e o Brasil que poderia ter sido

Em debates públicos, entrevistas e no livro Projeto Nacional – O Dever da Esperança, Ciro não economiza: “Ciência e tecnologia é hoje o outro nome de independência.” O GPS próprio se insere nesse sonho de um Brasil que investe em sua infraestrutura espacial, que se recusa a depender das réguas dos EUA ou da benevolência da Rússia. Ele propõe, inclusive, destinar 3% do PIB à ciência e tecnologia, com atenção especial às áreas de defesa, saúde, agricultura e engenharia espacial.

Essa proposta não nasce do improviso. Ela está alinhada à defesa que Ciro faz de órgãos como INPE, Butantan e Fiocruz como pilares de um desenvolvimento autônomo. É dentro dessa lógica que se compreende a urgência de um sistema nacional de posicionamento global: não apenas por segurança, mas como um símbolo de soberania.

Ciro também já mencionou essa pauta em entrevistas ao Canal Livre, nas sabatinas da Folha de S.Paulo, nos debates presidenciais e nas lives com economistas como Nelson Marconi. Em todos, o tom é o mesmo: o Brasil precisa reaprender a fazer o que já fez — aviões como o Super Tucano, jipes como o Troller, veículos blindados como o Osório. Precisamos abandonar o complexo de vira-lata tecnológico.

 Vozes da frustração: o Brasil como continente adormecido

O leitor @Geossistemas — o próprio autor desta crônica — tocou num ponto visceral. Disse: “O Brasil não é a Polônia ou a Eslováquia; o Brasil é um continente. Já construiu a Embraer, já perfurou poços no mar, já construiu o Osório, o Super Tucano e o Troller.”

Esse desabafo carrega verdade e raiva. E ela é legítima. O Brasil já provou, em diversos momentos da história, que é capaz de se reinventar. Mas hoje, segundo Geossistemas, está prisioneiro de duas figuras menores, “decrépitas”, enquanto o país precisa reorganizar sua economia e trilhar novas “rotas da seda” com parceiros como China e Rússia — leia-se: Ásia.

E mais: ele cobra diretamente o presidente Lula — que pare de falar de jabuticaba e vá trabalhar. Ou que entregue o cargo a Geraldo Alckmin, se for incapaz de dar conta. Cobra também o STF, para que não deixe Bolsonaro impune. Para Geossistemas, não há tempo a perder: “Esse país não pode ficar à mercê de duas figuras menores.”

 Entre o satélite e o dever da esperança

A frase sobre o GPS não é só técnica — é política, é emocional. O Brasil não precisa de mais diagnósticos; precisa de ação. Já temos a inteligência, os engenheiros, os institutos. Nos falta vontade política, coordenação e coragem.

A crônica de hoje é uma convocação. Que não falte voz, nem memória. Que não falte Ciro, nem Geossistemas. Que não falte a capacidade de sonhar com um país que projeta seus próprios satélites e trilha suas próprias órbitas.


quarta-feira, 16 de julho de 2025

O peso do olhar que falta




Hoje fui lembrado de uma das cenas mais emblemáticas do cinema: o momento em que o rei Leônidas, no filme Trezentos, está prestes a tomar uma atitude radical — e antes de fazê-lo, olha para sua esposa. Ela, em silêncio, chancela com um leve gesto de cabeça. É o bastante. Ele age.

Aquilo ficou na minha cabeça por dias.

Naquela cena, o que se vê não é uma relação de submissão ou hierarquia. É cumplicidade. Leônidas não pede permissão — ele busca respaldo. E o que ele encontra ali é exatamente o que todo guerreiro precisa antes da batalha: um olhar que diga “estou contigo”.

Volto ao presente. Recentemente, enfrentei uma situação frustrante no meu trabalho. Fui ao campo para executar um serviço, como sempre faço com responsabilidade. Mas o terreno estava completamente intransitável. O cliente, além de não ter cumprido o combinado, ainda exigia que eu voltasse para tentar novamente, sem ter sequer me pago.

Recusei. Tracei um limite. Não por orgulho, mas por respeito — a mim mesmo, ao meu tempo, ao meu ofício. Esperava que, ao chegar em casa, encontraria um gesto de compreensão, talvez um “você fez certo”. Mas recebi julgamento. Críticas. A sensação era de estar sendo desqualificado justo por quem deveria me fortalecer.

É nessas horas que a gente sente o peso do olhar que falta.

Ninguém carrega o mundo sozinho. Não é fraqueza desejar apoio — é humano. Nossos desafios diários exigem mais do que força técnica: exigem sustentação emocional. E quando essa sustentação falha, é como se a base tremesse por dentro, mesmo quando a fachada continua firme.

Não escrevo isso em busca de aplausos ou pena. Escrevo porque sei que muitos se sentem assim. Homens, mulheres, trabalhadores de todas as áreas: cansados de dar o melhor de si lá fora e voltar para um lar onde suas batalhas são minimizadas.

Que possamos refletir sobre isso. Que, mais do que apontar o dedo, sejamos capazes de oferecer o gesto de apoio. Às vezes, tudo que o outro precisa é daquele leve aceno de cabeça que diz: eu te vejo, eu te reconheço, eu estou contigo.